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Em busca de si mesmo

  • Foto do escritor: Regina Sanchez
    Regina Sanchez
  • 11 de nov.
  • 14 min de leitura

Atualizado: há 6 dias


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Em Busca De Si Mesmo 


O texto descreve alguns momentos cruciais do primeiro ano de psicoterapia de Reinaldo, revelando um processo de renascimento do jovem. Esses momentos foram viabilizados pelo ganho gradual de confiança na sua capacidade de reconhecer seus sentimentos e compreender suas próprias experiências ao longo do processo.

Reinaldo encontrava-se extremamente apático e passivo diante da própria vida. Através da terapia, inicia uma jornada de autoconhecimento, aproximando-se de sua história, sentimentos, sonhos, limites e possibilidades. Aos poucos, demonstrou maior autonomia, cuidado consigo mesmo e capacidade de expressar-se. 

O processo vital e potente de busca e encontro de si mesmo é tarefa de Reinaldo, um adolescente de 16 anos em situação de vulnerabilidade social, assim como, de cada um de nós.


1a. Parte : O barco à deriva


Na entrevista, Reinaldo praticamente não falou. Sua acompanhante, a diretora da casa do abrigo onde morava, foi quem me contou o que sabia de sua história. Ele morava com a tia e avó paternas e seus irmãos moravam com os pais. Sua mãe morreu, seu pai sumiu e seus irmãos, de 3 e 5 anos na ocasião, foram levados ao abrigo. Um mês depois, Ronaldo aos 7 anos foi também levado ao abrigo. 

A diretora justificou as lacunas na história pela falta de contato com os familiares do adolescente. Segundo ela, a família havia sido procurada por oito anos sem sucesso. Há cerca de  três meses, três irmãos paternos mais velhos começaram a visitar os irmãos abrigados, mas as visitas vinham diminuindo cada vez mais. Disse estar preocupada com a expectativa criada por Reinaldo em ser adotado e isso não acontecer. Contou também que ele era excessivamente desinteressado e passivo, “ele é sempre abusado, os garotos fazem ele de bobo, estragam suas coisas. Ele não cuida bem de seus pertences, nem mesmo de sua higiene. Precisamos também falar duas, três vezes para ele fazer as tarefas da casa”.

Mudo e olhando o chão, Reinaldo não respondeu nenhuma de minhas perguntas. Ele era alguém excessivamente tímido, um bichinho acuado, algum déficit intelectual, transtorno? Ainda não sabíamos, nem eu e nem mesmo ele.

Começamos sua primeira sessão colhendo, comendo e jogando sementonas de nêsperas na terra (pela janela do meu consultório era possível colher os frutos).


A brincadeira de gol a gol

Em nossa brincadeira, enquanto um fazia as traves do gol com as mãos, o outro chutava a bolinha de papel com um “peteleco” e revezávamos. O pênalti era marcado a cada três bolas na trave. O meu gol era baixo, com um goleiro (um dedo) dentro. Já Reinaldo esticava seus dedos para deixar seu gol o maior possível, que era enorme e sem goleiro. Imediatamente, ele acusava todas as vezes em que era pênalti a meu favor, mas no seu caso avisava em média na metade das vezes. Perguntei se ele percebia como acabava facilitando minha vitória e se isso acontecia em outras situações. Então, contou que os meninos estragavam suas pipas, pegavam coisas de seu armário e no futebol era sempre colocado como goleiro, “mas eu tenho um rádio que eu não empresto pra ninguém. Só quando me pedem.” ?! Perguntei como ele se sentia nessas situações: “Não sei, nada.” Perguntei se queria ganhar de mim ou se gostava de agarrar no gol: “Não sei.”  Não sei e nada significavam a mesma coisa para Reinaldo?


A desatenção


Nas falas de Reinaldo constantemente aparecia uma queixa por levar broncas, pagar o pato sem ter culpa, de ser mal entendido. Uma vez, por exemplo, acharam um pacote de biscoitos de outro garoto dentro do seu tênis. Reinaldo mostrou-se surpreso por não poder pegar o pacote de bolacha que “achou”, não pensou que aquilo era de alguém. Em outra situação, deveria lavar a louça e esqueceu que as panelas também deveriam ser limpas. Muitas outras tarefas mal cumpridas e mal entendidos renderam-lhe broncas e castigos. Certa vez, passou férias com os irmãos abrigados na casa dos irmãos mais velhos, que reclamaram do comportamento deles. Demonstrou surpresa e tímida revolta com a queixa, pois disse não ter feito nada, os outros é que tinham “aprontado”. Seu sentimento parecia tão verdadeiro quanto a razão dos que o culpavam. Aos poucos a “injustiça” foi sendo revista. 

As meninas


Reinaldo falou algumas vezes das meninas com quem ficava. Parecia tudo “tranquilo” neste campo. Porém, de pertinho, foi aparecendo o modo como ele ficava com essas meninas. Era sempre de forma arranjada pelos primos ou pelas próprias meninas. Não soube me responder se teve vontade de ficar com alguma delas?!


Sua história em branco


Reinaldo compreende-se como vítima de mal-entendidos desde os sete anos. Disse que no enterro da sua mãe uma tia perguntou se ele queria ir ao abrigo. Ele entendeu que seria para visitar os irmãos e respondeu afirmativamente, mas ela o levou para morar no abrigo também. Sobre sua ida ao abrigo, isso era tudo que Reinaldo lembrava. Ele sabe que a mãe morreu, mas não sabe como. Desconhecia o que a tia e a avó que o criaram achavam dele ter ido para o abrigo e o porquê delas nunca terem o procurado. Ele lembrava que elas eram carinhosas com ele, assim como o pai. Era como se os sentimentos de Reinaldo estivessem adormecidos: curiosidade, ressentimento, culpa, amor. Reinaldo estava ali, mas não estava ali.

Acompanhado


Reinaldo ia sempre acompanhado à terapia. A diretora do abrigo ficava insegura com a ideia dele ir sozinho, disse que ele poderia pegar ônibus errado, se atrapalhar com o nome deles ou das ruas.

Horário da escola


No início do processo terapêutico acertamos um horário à tarde para atendimento já que ele ainda não sabia qual seria o horário de suas aulas. Depois de meses de terapia por minha insistência, descobri que ele faltava na escola no dia de terapia. Insisti para mudarmos de horário, mas ele preferiu manter, justificando que não tinha problema, pois perdia aula de Ed. Física e outra que não tinha problema.  


Minha impressão


Minha impressão era a de que se alguém chamasse Reinaldo para assaltar um banco, pular de um prédio ou fazer a mais heróica das ações, ele poderia ir. Era muito difícil para Reinaldo dar-se conta de seus atos e sentimentos e assumí-los. Não assumia-os porque sequer conseguia identificá-los. Realmente não sabia: eu quero isso, queria aquilo, senti isso, fiz tal coisa para... Sentir, saber, querer, que coisas mais estranhas e difíceis de se conversar com Reinaldo. Penso o quanto ele me ajudou a voltar a essencial tarefa da psicoterapia de discernimento, apuração dos sentimentos, perceber-se, escutar-se, descobrir-se para então desdobrar-se. E isso com ele foi feito de forma muito “b-a-ba”.

Seu fixo, tímido e invariável “tudo bem” de todos esses meses ao responder meus cumprimentos, começava a aparecer com tonalidades. E com o tempo ele nascia ao parir, pois era um parto para ele dizer tenho saudades, estou feliz, quero isso, sonho com aquilo, estou com raiva (um parto delicioso de testemunhar). Devagar, renascia.


2a. Parte: Levantando as velas


A família, o sentir e o ter vontade


Em algumas sessões, de forma difícil, curta e profunda, falou do reencontro com a avó, a qual chama de mãe. Perguntei como foi revê-la, ele contou que havia dito “benção mãe”, como sempre fez até seus sete anos, depois se abraçaram e choraram. Seus sentimentos apareceram e ele  falou da saudades e falta que sentia dela. Contou que conversou por telefone com a tia com quem morou e ela disse “um dia vamos voltar a morar juntos”. Reinaldo falava dos fatos e era uma busca, uma procura para “escutar” quais sentimentos os acompanhavam. Recordou o gosto de carinho que já teve do pai, da tia e da avó e o de morar junto da família. Aos poucos, os queros foram tomando formas: um dia voltar a morar com elas; ou ser adotado pelos irmãos; saber o que houve com o pai; um dia revê-lo.


O dia de seu aniversário


No meio de uma conversa perguntei o dia de seu aniversário e ele respondeu: “Não sei”. Não disfarcei meu espanto. Depois de seis meses de atendimento era mais possível para mim dizer e para ele escutar algumas de minha impressões e então falei do Reinaldo que se comportava como um barco em alto mar à deriva, que vai de acordo com as marés sem que o marinheiro tome a direção do barco em nenhum momento. Perguntei se percebia como não corria atrás de si e de sua história e o que achava disso: por exemplo, do dia do seu aniversário, como sua mãe havia morrido, do por quê morar com sua tia e sua avó enquanto seus irmãos moravam com seus pais; o que havia acontecido com seu pai; de não ter perguntado isso a sua avó ou aos seus irmãos mais velhos; de não ter comentado que gostaria de voltar a morar com elas; do tanto faz em relação à escola ou aos cursos. Suas lágrimas foram suas palavras. Continuei, pausadamente. Falei que ele parecia estar esperando o cuidado que não teve durante os seus 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15 anos, durante os natais, dias dos pais, momentos difíceis, ou mesmo bons. O tempo estava passando, mas ele continuava esperando pelo cuidado que não teve. Era preciso aceitar a dor da ausência de todos esses anos, para sair do lugar de quem está  esperando o cuidado perdido, como uma criança de 7 anos. 

O momento pedia uma pausa. Esperei e prossegui: era preciso abrir mão do que ele gostaria que tivesse sido, para que pudesse receber o que ainda era possível hoje, com os seus 16 anos.  Perguntei: “ O que você está fazendo para conseguir as coisas que já me disse que gostaria?” Em um choro incontrolável difícil inclusive para mim, pois era a primeira vez que via emoção transbordar naquele menino e com um olhar de quem se dá conta com esperança e sem cobrança, Reinaldo responde: “Ainda nada”.  Satisfeita, repeti  A-I-N-D-A, seu futuro começava a se abrir.


Desacompanhado ou andando com as próprias pernas


Comentei com Reinaldo a minha conversa com a diretora sobre ele ser o único adolescente a ir acompanhado à terapia. Ele disse que conseguiria ir sozinho. Perguntei se, além de se sentir capaz, sentia vontade de ir desacompanhado. Respondeu convicto, sim. Conversei novamente com  a diretora e desde então Reinaldo começou a ir (sem atrasos ou faltas) por conta própria a sua terapia.


A atenção e o cuidado


Reinaldo contou-me com orgulho algumas atitudes que começou a tomar. Uma delas foi o fato de estar ficando com uma menina que contou a ele estar grávida de outro garoto. Ele disse que terminou o namoro para não “pagar o pato”, insistiu para ela esclarecer com o pai dela que ele não tinha nada com isso e, imediatamente, contou para a “tia” do abrigo o ocorrido.

Em outra situação na qual se sentiu injustiçado diante de uma bronca ele constantemente levava bronca pelo que fazia e pelo que não fazia protestou: “Por que quando você está nervosa com alguma coisa acaba descontando na gente?” E concluiu com expressão surpresa: “E ela não respondeu nada?!”

Em outro momento, pela primeira vez, teve a iniciativa de ligar para os irmãos, pois, segundo ele, seus irmãos mais novos queriam falar com eles. Depois assumiu que também queria, mas as tias da casa não deixaram e aconselharam “se eles não vem ver vocês, não é para vocês correrem atrás”. Na sessão anterior havíamos conversado sobre seu jeito de não demonstrar sua opinião ou sentimento e de como isso poderia atrapalhar o relacionamento com outras pessoas, como era difícil saber o que se passava com ele, pois ele demonstrava muito pouco. Perguntei se o tentar ligar para os irmãos era uma maneira de demonstrar interesse, de tentar fazer algo pela relação e o que ele achava dessa sua atitude, diferente da comum passividade. Mesmo sem ligação ele parecia surpreso consigo e satisfeito com tentar ligar.

Minha secretária também notou uma mudança na sua postura: “Quando ele respondia meu cumprimento, não conseguia escutar sua voz. Agora, ele chega me cumprimentando e, sem eu ter pedido, abriu duas vezes a porta para pacientes para me ajudar?! Para quem mal se mexia...” 

Em um ano Reinaldo faltou quatro vezes à terapia. Na primeira, uma funcionária da casa ligou-me, em duas nenhum aviso e na última, ele me ligou.

Também começou a esboçar uma preocupação com trabalho e interesse em um curso de computação.

Nessas situações citadas e em algumas outras começava a aparecer um cuidado de Reinaldo consigo. Eram atitudes até então incomuns para ele, que parecia orgulhar-se. Já eu não deixava de comentar o que via.


Sonhar


Construímos um protótipo, com argila, da sua casa dos sonhos. Ele começou tímido, mas foi se soltando e permitindo-se sonhar. Uma casa foi ganhando vida, colorida com churrasqueira para chamar amigos, três quartos (um para ele e a esposa, outro para dois filhos e outro para a mãe) e dois cachorros para protegê-la. Eu contemplei surpresa Reinaldo sonhando.

O sonho


Em um atendimento fizemos um teatro de fantoches e enquanto eu recortava a moldura de isopor pedi-lhe para pensar no nome do teatro. Ele pensou, pensou e disse: “Não consigo”. Recordando com ele alguns momentos das sessões, que considerei importantes até aquele momento, dei algumas sugestões: AINDA nada; Benção mãe; saudades; sonhos. Dou uma pausa e ele diz: “O sonho!”

Arranjamos a sala de tal forma que quem encenava com os fantoches não aparecia para quem assistia. Combinamos alternar a apresentação. Na vez dele hesitou por uns cinco minutos e disse: “Não consigo. Tenho vergonha.” Enfim, Reinaldo conseguiu e contou a história de um pai que procurava o filho e de um filho que procurava o pai e, quando se reencontram, o pai disse: “Vai logo se trocar para não chegar atrasado na escola.” Despediram-se e o menino foi à escola. A história acaba. 

Depois de uns minutos de silêncio, perguntei se ele tinha vontade de reencontrar seu pai. Ele concordou mudo. Perguntei se ele ainda queria que o pai dele cuidasse dele.  Emocionado, afirma com a cabeça.  Ainda questiono se ele sofria por saber que os anos que o pai não cuidou dele não tinham volta. Chorando, concorda mais uma vez. Segurei-me para não levar a conversa para onde eu achava que ela deveria ir o precisar abandonar o sonho de ser cuidado como uma criança e perguntei o que a palavra ‘pai’ fazia-o lembrar. Ele respondeu com lágrimas de saudades: “Carinho”. Saudades do que sentia já ter sido, saudades do que poderia ter sido e do que ainda queria que fosse. Ainda bem que me segurei e perguntei, porque me surpreendi, algo novo apareceu para enriquecer a compreensão. Ele sentia novamente o sentimento de carinho. Esperei. Depois do silêncio que uma verdade requer, falei que ser cuidado pelo pai como uma criança, já não daria mais, no máximo seria um adolescente se comportando como criança. Perguntei quais outros carinhos ainda eram desejáveis e possíveis para o Ronaldo de hoje e se ele queria poder sentir algo parecido com aquele carinho ainda na sua vida. Enxugando as lágrimas, talvez com esperança, concordou mudo. A minha esperança era a de que um sonho estivesse morrendo para dar espaço para outro nascer.


O dia de seu aniversário


Em uma sessão comentou orgulhoso: “Faço aniversário no dia x”. Perguntei como ele havia descoberto, “Pedi para as tias pra eu ver minha pasta, que fica com elas e descobri.” Perguntei como era para ele resgatar sua história, saber mais de si. Não me respondeu com palavras, apenas sorriu. Sorri de volta.


A timidez


Certa vez, quando Reinaldo comentou que era tímido (fato inquestionável para qualquer um), perguntei como era sua timidez. Ele respondeu: “Não sei. Vergonha.” Eu continuei: “De que?”.  “De fazer algo errado”, afirmou. Eu insisti: “Como o que?”. Ele se expressou (que surpresa!): “Por exemplo, se estou almoçando na casa de meus irmãos, nem pego o refrigerante, porque posso acabar derrubando.” Avancei: “ O que tem se você fizer algo errado?”. “Eles podem ficar bravos”, concluiu. Perguntei: “Se eles ficarem bravos você tem medo de eles não quererem ficar mais com você, gostar de você?”. Ele concordou. Sua timidez revelou-se num esforço para ser querido.


O ser querido e o querer


Certa vez, perguntei se ele percebia-se como criança. Ele respondeu não saber. Retomei algumas coisas que já havíamos conversado sobre sua timidez, sua vontade de ser querido e sua postura de quem está esperando ser cuidado. Falei ainda do como é gostoso ser cuidado, mas também do como pode ser gostoso cuidar e ser cuidado “de igual para igual”. Com cuidado para não passar por cima dele, mas sentindo cheiro de oportunidade e confiando que ele estivesse mais maduro para tal reflexão, prossegui: “Por exemplo, você já pensou que talvez para poder ficar junto deles você precise se sustentar, para isso talvez estudar algo, ver o que lhe interessa; ou quando tiver vontade de falar com sua mãe, ligar para ela (de um orelhão, ou do abrigo), ao invés de se lamentar por ela não ligar; ou pensar em você ir visitá-los num sábado, etc. Existem outras formas de poder se reaproximar deles, que é o que você já me disse que quer, mas que exigiria de você deixar de ser a criança de oito anos só à espera. É um caminho”. Ele se manteve atento e em silêncio.


Horário da escola


Em outro dia, perguntou-me se poderíamos mudar seu horário para não faltar mais à escola. Pontuei que ele parecia começar a se importar e cuidar de suas coisas.


Parte 3: Velejando ou colhendo frutos


No primeiro dia do horário novo eu faltei (quebraram o vidro do meu carro). Quando liguei para o abrigo para avisá-lo, ele já havia saído e não teria ninguém para recebê-lo. Consegui falar com ele depois de algumas horas, quando já estava na Casa, e expliquei a situação. Imaginei como Reinaldo se sentiu sentado na calçada, à espera.

No próximo atendimento, cheguei dez minutos atrasada e ele estava na calçada esperando com os olhos lacrimejados. Ao entrar na sala, perguntei como estava e ele respondeu “tudo bem”, como sempre, mas comentei que esse “tudo bem” parecia sentido, choroso. Ele disse estar com sono, calou-se e baixou a cabeça. Perguntei como se sentiu com minha ausência e se hoje ele havia imaginado que eu pudesse faltar de novo, por causa do meu atraso. Não respondeu, silêncio. Questionei se se sentiu deixado de alguma forma e como era isso especialmente para ele. Disse mais uma vez que estava tudo bem e só estava com sono. Esperei, mais silêncio. Ele começou a chorar. Esperei. Perguntei se ele queria falar. Disse que não. Aguardei novamente. Perguntei se ele sabia o que estava fazendo-o chorar. Ele afirmou saber. Disse para ele me contar apenas se quisesse, por achar que poderia lhe fazer bem, e para ficar à vontade para chorar. O choro e o silêncio gestavam algo. Esperei. “Eu não consigo contar”, disse. Ele ficou mais uns cinco minutos à beira do precipício, era preciso coragem para se jogar num novo modo de ser, onde precisaria confiar para libertar sentimentos enclausurados, confiar para estar pronto para relações de intimidade. Esperei, estava vindo... Chorando, desabafa: “São meus irmãos…” pausa, choro “Cada vez inventam uma desculpa para não ver a gente”.  Com cuidado fui perguntando e ele traduziu seus sentimentos em raiva e tristeza. Depois de tê-los escutado, Reinaldo ficou mais calmo, mas também parecia exausto, como se tivesse feito muita força para falar e falado muito.

Enfatizei o fato de ter conseguido se escutar e se expor e perguntei: “Reinaldo, você está sentindo como se sua felicidade estivesse nas mãos dos seus irmãos? Se seus irmãos quiserem visitá-lo ou adotá-lo isso é tudo, mas caso contrário, nada tem valor? Como se você tivesse sido até ‘traído?’”. Ele interrompeu: “Eles estão me fazendo de idiota!” Continuei: “Eles apareceram para depois largar vocês de novo?! Para que mexer em sentimentos que você já tinha quase esquecido? Para que fizeram com que vocês sonhem de novo com família, carinho, ser cuidado e depois fugirem de vocês, inventando desculpas? Já não bastava terem largado vocês uma vez? Agora eles vêm aqui, fazem você sentir o gostinho do amor de novo e vão te largar?” Isso que estou dizendo parece com o que você está sentindo, Ronaldo?” Concorda com a cabeça e expressão sofrida. Pausa… Retomei: “Agora, vamos pensar que mesmo que seus irmãos não te adotem, mesmo que deixem de visitar vocês, até hoje o que as visitas deles despertaram em você? Para que mais a vinda deles pode te servir?”. Silêncio. Pausadamente, ajudei-o: “Vamos recordar suas descobertas: saber que tem alguém que se preocupa e pensa em vocês; perceber que você estava esquecido de sua história; ter vontade de reconhecê-la; lembrar do carinho que já teve; essas visitas o fizeram sentir amor, vontade de estar junto; perceber que sente falta de ser cuidado; pensar se é possível ter carinho não mais como uma criança de oito anos, mas como o Reinaldo de dezesseis, vendo o que ainda pode ser e não mais preso no que não foi; o gostinho do sonhar, ah...sonhar em ter uma família, sua casa, morar com sua mãe (avó), revê-la”. Tempo. “Quanta vida aí, Ronaldo!” Tempo. “Será que é possível pensar nessas visitas, independentemente se eles irão adotá-los ou visitá-los com mais ou menos frequência, como um presente, como uma oportunidade que você teve e está aproveitando para se desenvolver e enriquecer? Essas suas conquistas eles não podem tirar, não estão nas mãos deles, são suas. Eu sou testemunha do quanto você se desenvolveu, enriqueceu sua história, conhece mais suas emoções e seus sonhos.”  Atento, sério e com uma expressão muito mais serena, diz baixinho “é verdade”. O choro agora era leve, diferente do inicial, e bonito de testemunhar. A raiva pelo que não foi parecia dar lugar à esperança do que ainda poderia ser.

No atendimento seguinte uma moça da Casa ligou-me para avisar que Ronaldo não iria, pois queria tirar seu documento de identidade e aquele horário seria o único que a responsável poderia acompanhá-lo. Pensei: sua carteira de identidade!

No próximo encontro Reinaldo estava mais calmo. Passamos a sessão fazendo sua árvore genealógica, colhendo e comendo nêsperas, novamente, um ano depois. 

Nesse um ano Reinaldo começou a realizar a grande façanha que cada um de nós tem como desafio:  tornar-se parceiro da realidade ao invés de brigar com ela. Ele pôde começar a escutar os ventos e marés e então velejar. Etimologicamente a palavra homem vem de humus, terra fértil, que acolhe e faz brotar. Reinaldo pôde saborear frutos de sua história, azedos e doces, e das sementes brotaram sonhos no menino-homem.


 
 
 

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