O mal-estar é um chamado
- Regina Sanchez
- 11 de nov. de 2025
- 22 min de leitura
Atualizado: 2 de dez. de 2025

O texto a seguir descreve o modo como um jovem descobriu em seus sintomas de ansiedade uma oportunidade de redirecionar sua vida.
No início de nossas conversas, ele entendia sua insônia e ansiedade como resultados de uma experiência que havia vivido. Posteriormente, descobriu que seus sintomas vinham do que ainda não havia acontecido e poderia vir a acontecer, ou seja, de possibilidades futuras. Seus sintomas deixaram de ser entendidos como meros resultados de algo passado e diante do qual nada mais poderia ser feito. Seu mal-estar passou a ser compreendido como um chamado do futuro e diante do qual ele poderia fazer algo, revelou-se um convite para rever-se e reposicionar-se diante de sua história.
A lógica determinista é insuficiente para o ser humano, pois somos mais do que mero resultados de fatores. Somos esse ser responsável por compreender aquilo que vivemos para nos interpomos entre nosso passado e nosso futuro. Temos a tarefa intransferível de nos posicionarmos diante de nossas histórias. Podemos fazer isso de forma mais passiva, alienada, vitimista ou de forma mais apropriada e mais fiel a nós mesmos.
O texto é dividido em duas partes. A primeira é composta por trechos dos atendimentos realizados e por alguns apontamentos. Na segunda parte, esses apontamentos são desenvolvidos e são apresentadas breves considerações sobre o embasamento teórico dos atendimentos efetuados.
Os encontros foram realizados no serviço de Plantão Psicológico de uma periferia da cidade de São Paulo no Grupo de Pesquisa em Práticas Educativas e Atenção Psicoeducacional à Família, Escola e Comunidade (ECOFAM), vinculado à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Esses encontros foram descritos na minha dissertação de mestrado. O jovem forneceu autorização para a publicação dos seus atendimentos e seu nome e outros dados identificatórios foram alterados.
Engana-se quem imagina que o texto possa servir apenas àqueles que trabalhem ou tenham interesse por casos de uma realidade pobre economicamente e violenta. O texto trata de todos nós, menos ou mais privilegiados socialmente. A busca pelo sentido de nossa história pessoal, ou seja, pela direção que queremos caminhar, a partir de nossas experiências é um trabalho de todos e de cada um de nós.
PRIMEIRA PARTE
Resumo do 1°. Encontro - Duração: 2h30min
Jonatan, 19 anos, usava bermuda, camiseta regata e chinelos, parecia um pouco envergonhado e desanimado. Apresentamo-nos com um aperto de mão e sentados começamos o diálogo que se segue.
– Jonatan, como você chegou ao Plantão?
– A educadora falou para eu vir, porque ela sabia que eu estava com problemas. É difícil dizer o que eu tenho para falar. Estou com vergonha. Posso voltar depois? _ Falava com altura de tom de voz média para baixa, sem acelerar.
– Pode, mas você pode esperar um pouquinho?
– Tá.
Ele havia me procurado duas vezes antes de eu chegar. Parecia, realmente, precisar falar com alguém e, nesse caso, uma ajudinha para ele ficar poderia ser crucial. Comentei sobre o sigilo profissional e acrescentei:
– É estranho mesmo falar de coisas pessoais com quem a gente mal conhece, né? Com quem você mora?
– Com minha mãe e com meu avô. Minha prima agora saiu de casa, porque foi morar com o marido... Você não conta pra ninguém mesmo?
– Só se você quiser ou se alguém estiver correndo risco de vida. Se, por acaso, eu vier a escrever sobre nossos atendimentos para fins de pesquisa, será só com sua permissão e com alteração de qualquer dado que possa te identificar.
– Tenho vergonha.
– Vergonha de algo que você fez?
– Sim.
– Você conversou sobre isso com alguém? Alguém sabe?
– Eu não falei pra ninguém e só quem sabe é meu parente, que foi quem fez a besteira, eu só estava junto.
Enfim, desabafou. Contou que foi a um bairro vizinho com o parente por conta de um acerto de brigas. Ele estava armado, mas não pensava que aconteceria um assassinato. Houve discussão, o parente exigiu a arma, ele deu e bum! Depois ajudou o assassino a arrumar o corpo para parecer acidente. Nesse momento ele descreveu e repetiu detalhes do crime.
– Eu não sou culpado, né? Foi ele quem atirou! A gente vendeu o carro e a arma. Na hora estava escuro e a outra pessoa que estava lá, talvez, não tenha me visto bem. Eu não fui culpado, né? O cara não tem como saber que era eu, né?
Evitando dar respostas eu pedia calma e procurava entender mais.
– Você costuma andar armado?
– Eu estava com ela, porque a gente ia resolver uma briga em um bairro vizinho, aí eu precisava levar, porque, se os caras de lá estivessem armados, eu precisava me defender.
– Você já esteve em situação parecida?
– Não, eu vendo drogas, faço alguns assaltos, mas nunca teve morte.
– Você usa drogas?
– Não mais, eu usava cocaína, mas não crack, porque pedra os caras não deixam entrar aqui, senão os cara vira tudo noinha e não conseguem mais trabalhar.
– Quando a morte aconteceu?
– Há um mês e meio.
Ele repetiu quatro vezes, sem que eu pedisse, detalhes da cena do crime, essa repetição parecia uma tentativa de tirar o peso do segredo de algo que finalmente estava sendo dito.
– Conta-me um pouquinho da sua história?
– Eu morei com minha avó até 7 anos no interior e depois ela me trouxe para morar com minha mãe. Até então, eu achava que minha avó era minha mãe. Depois é que elas me falaram a verdade, mas as duas sempre foram muito boas pra mim. Aí, há uns oito anos, minha avó teve uma doença, não se lembrava mais de ninguém e morreu. Eu fiquei meio mal.
– E seu pai?
– Não sei nem quem é. Com uns 14 anos eu comecei a andar com os caras errados e, por medo, minha mãe me levou para morar uns tempos com uma tia em uma cidade pequena. Lá, fiz um assalto e voltei fugido. Daí, quando cheguei aqui, conheci o pessoal do crime e agora não consigo sair.
– Mas você quer sair?
– Quero. _ Esse “quero” não parecia falso, mas sim desmotivado, quase morto.
– Por que, para que você quer sair? _ Eu procurava suas motivações.
– Porque eu fico vendo o tempo todo o rosto do cara morto _ Pausa _ E depois, se tenho um filho, como vou falar pra ele não fazer as coisas erradas se eu faço?
Essa conexão feita por ele chamou minha atenção: Pra que sair do crime? “Porque eu fico vendo o tempo todo o rosto do morto”.
– Você tem algum sonho, vontade de conseguir alguma coisa, que alguma coisa aconteça?
– Eu queria ter uma casa, família...
Essa resposta pareceu-me meio genérica, apática, distante, assim como quando comentou de filho.
– Como é o Willian? _ o parente que havia cometido o assassinato.
– O cara é muito raivoso, qualquer coisinha que fazem com ele, ele quer matar. Falam que ele ficou assim depois que saiu da cadeia. Ele bate na minha prima.
– O que você sentiu na hora que ele pediu a arma?
– Não sei, medo. Ele falou que era eles ou nós e gritou para eu dar para ele. Eu falei para deixar quieto, mas não teve jeito.
– Como tem sido esses dias depois desse acontecido?
– Eu nunca tive medo de nada, agora não saio de casa. Se passar um carro com vidro escuro eu já acho que estão atrás de mim. Direto eu vejo o rosto do homem morto. Antes eu sentava ali na praça com o pessoal… agora, nem consigo dormir.
– Como é na sua casa?
– Minha mãe já falou que tem até vergonha de mim, que prefere morrer a ver um filho morto ou na cadeia. Falou que outro dia ela passou na rua e falaram ‘olha a mãe do marginal!’. Esse eu tinha coragem de matar! Ela fala que quando meu avô morrer eu vou ver se ela não vai se matar, dá raiva quando ela fala assim, dá vontade de falar para ela que posso dar um revólver pra ela. As pessoas não se matam assim, né?
– Existem pessoas que se matam sim, mas eu não posso falar da sua mãe até porque eu nem a conheço. Você tem medo de que ela morra?
– Tenho. _ Esse “tenho” aparecia mais emocionado, vivo.
– Como ela é com você?
– Ela diz pra mim que está perdendo o amor por mim, que vai me largar. Ela fala para mim que não é certo pegar as coisas de quem trabalha para comprar. _ Pausa _ Você acha que ela pode parar de gostar de mim?
Fiquei tocada. Aquele menino-bandido importava-se verdadeiramente com o sentimento de sua mãe e tinha medo de perdê-lo. Ele precisaria agir para esse futuro indesejado não virar realidade.
– Poder? Pode. Você tem medo de que ela morra e medo de perder o amor dela?
– Tenho. Eu vendi minha arma. É ruim ficar sem, porque a gente fica mais fraco. Estou recusando os movimento (assaltos), mas os caras já estão no meu pé.
Ao falar que tinha medo de ficar sem o amor da mãe, ele associa o largar o crime e disse que vendeu a arma. Seus motivos para sair do crime começavam a aparecer: recuperar o amor da mãe e parar de ver o rosto do homem morto.
– Amanhã mesmo tem um negócio de oito mil, que não sei se vou. Eu já fui lá umas quatro vezes pra negar, mas não consigo. Aí o chefe pergunta o que foi e eu falo que fui buscar umas paradas para vender e ele fala ‘pega logo!’ e daí eu digo que depois volto.
– Como você se sente nesses momentos?
– Fico com medo.
– De que?
– Dos caras me apagarem (matarem), porque quando sai um ele pode abrir (contar) pra polícia. Já apagaram uns quatro que quiseram sair, menos um que entrou pra igreja e era truta (amigo) do chefe. Esse cara está bem, com carro, casa, trabalho. Apesar de eu achar que ele comprou as coisas com dinheiro do crime. Tem uns caras que são espertos e guardam dinheiro.
– Você guardou?
– Nada. _ Não era esse o motivo que o fazia querer sair do crime.
– Como é quando você não sai com os caras?
– É bom e ruim. Às vezes eu não quero ir e na hora “h” acabo indo.
– Jonatan, deixe de lado um pouco, o que dizem que é certo ou errado. Pense na sua vida, o que você quer para ela? Eu, por exemplo, quero chegar ao fim da vida e sentir que fui importante para alguém ou para algumas pessoas. Mas isso é o que eu, Regina, quero para mim. Você está num momento de saber o que quer para sua vida, ela é só sua! Ninguém pode saber mais sobre o que você quer pra sua vida do que você mesmo.
Silêncio. Responde com firmeza e vivacidade:
– Eu quero sair do crime!
Depois de uma pausa, porque era preciso silêncio para escutar o ecoar da sua vontade, eu disse:
– Bom, para isso, você tem alguns pontos a seu favor: o primeiro é não ser viciado, porque se tivesse que sustentar o vício seria muito mais difícil. O segundo é ainda ter sonhos: família, filhos (como você falou) e servir de exemplo para eles. Você já gostou de alguém, para querer namorar?
– Não.
– Ainda tem isso para viver. O terceiro ponto é o amor que você tem da sua mãe e o medo de perdê-lo. E, talvez, o principal fator que possa te ajudar é esse mal-estar, esse desassossego diante da morte do rapaz. Talvez isso seja um sinal de que o crime não é mais para você ou talvez, com o tempo, você pode se tornar como Willian, que mata tranquilamen...
Ele me interrompeu:
– Não, eu não quero isso!
Esse querer ser diferente de Willian também parecia um desejo muito verdadeiro de Jonatan, sua motivação aparecia no tom da sua voz. Pausadamente, expus o que consegui perceber, até aquele momento, daquilo que parecia assombrá-lo.
– Apesar do assassinato e do sofrimento que você vem sentindo serem terríveis, eles podem servir para fazê-lo pensar o que quer para seu futuro. O que foi não dá para mudar. Além do grande mal-estar pela culpa do que já foi, há também a culpa pelo que ainda pode acontecer? _ Ele assentiu com a cabeça. _ Você me perguntou se é culpado pela morte do rapaz, por esse tormento que lhe persegue, por ter dado a arma. Legalmente, acho que você pode responder por participação. No entanto, parece que existem duas coisas aí: uma é o crime que já aconteceu; e outra são as mortes que provavelmente acontecerão, se você continuar no crime. Além da culpa pelo que já aconteceu, parece que o que perturba você são as mortes que poderão acontecer e o que você pode se tornar, mas em relação a isso você ainda pode fazer alguma coisa. Talvez, seu mal-estar esteja lhe dizendo algo e possa lhe servir.
Atentamente, ele concordou com a cabeça. Graças a essa experiência indesejada ele pôde re-ver-se. Esses sintomas foram uma oportunidade para poder reposicionar-se diante de sua vida. Era preciso acolher, ouvir o que seus sintomas lhe contavam.
– Mas como eu faço? Eu pensei em ir lá e falar: “vou dar um tempo, os polícia estão atrás de mim. Amanhã eu faço o trampo (trabalho), mas nem quero o dinheiro” e aí eu paro. Aqui eu falo, mas na hora eu não consigo, os caras não vão deixar.
– E se você perguntasse ao cara que saiu o que ele acha?
– É uma boa.
– E se você saísse daqui do bairro? Você acha que sua mãe toparia? Acha que eles iriam atrás de você?
– Minha mãe ia na hora, só que daí a gente ia ter que pagar aluguel, que aqui a gente não paga, mas acho que eles não iam atrás de mim.
– Estando aqui, a polícia ou colegas do morto podem achar você, caso procurem. Quanto ao aluguel, daria para alugar a casa onde vocês moram agora e com esse dinheiro pagar outra?
– É, mas eu moro aqui desde pequeno, tenho meus amigos, o pessoal do Projeto, que os mano fica me tirando (caçoando) de eu estar participando.
– Bom, Jonatan, vamos pensar o que conseguimos ver até agora, porque mais tarde podem ainda surgir mais coisas, que hoje a gente não consegue ver. Por enquanto, parece que você tem três opções, pense com qual você vai ficar: 1o) continuar aqui e no crime e deixar de ver sua mãe tendo orgulho de você, correndo grande risco de ficar como Willian;
2o) sair do crime e largar o lugar onde você gosta de morar, com suas amizades e também com as ameaças que este lugar agora tem para você; ou 3o) sair do crime e continuar aqui, correndo o risco de morrer pelo assassinato ou por ter saído do crime. Pense seriamente e talvez conversar com o cara que conseguiu sair do crime possa lhe ajudar a tomar SUA decisão.
Ir à polícia fazer qualquer confissão ou denúncia seria suicídio, nessa realidade privada de um sistema jurídico e penitenciário minimamente decente.
– Amanhã vou falar para os caras que não vai dar para eu ir!
Pausa.
– Podemos ficar por aqui e continuar na próxima semana?
Ele concordou, parecendo-me muito, muito mais leve, motivado e esperançoso.
O portão por onde entramos estava fechado. Através da grade, ele pede para uma moça (conhecida sua) chamar alguém na creche para abri-lo. Enquanto esperávamos ele perguntou:
– Você quer bolo e refrigerante?
– Não, obrigado. Eles dão bolo e refrigerante no Projeto?
– Não, eu ia comprar pra senhora.
Silêncio e, de repente, apontando para um ipê cheio de flores amarelas, ele me surpreende:
– É engraçado, tem coisas que estão sempre aqui e a gente nunca vê. Olha que bonita essa árvore, nunca tinha reparado nela.
Ui...
Abriram o portão e despedimo-nos.
– Então, espero você na próxima semana, para que se sinta acompanhado neste seu momento de decisão.
Saí impactada desse encontro e pensei no papel do psicólogo de favorecer que o cliente veja de-novo o que já estava lá “tem coisas que estão sempre aqui e a gente nunca vê”. É como se, naquelas duas horas e meia, Jonatan tivesse ampliado sua humanidade ao reconhecer-se em sua velha-nova história. Pensei também quanto sofrimento (e provavelmente mortes) aquele jovem evitaria, por rever sua história e reposicionar-se diante de sua vida, saindo de uma espécie de automatismo sonâmbulo.
Resumo do 2o. Encontro − Duração: 20 minutos.
Eu estava na sala de atendimento, quando escutei um grito “Ô psicóloga!”, era Jonatan dizendo que o portão estava fechado. Ele chegou muito diferente da semana anterior, sorridente, com reflexos no cabelo e cabeça erguida. Cumprimentou-me com um aperto de mão e uma bala. Aceitei, agradeci e perguntei se estava tudo bem. Com peito estufado e sorriso largo, respondeu:
– Sim! Resolvi as paradas. Fui na casa do cara que saiu, que está na igreja e depois a gente falou com o chefe. Aí, fui lá conversar com o marido da minha prima também, falei que tinha conversado com você, aí ele ficou me tirando que você era da polícia, porquê de eu te contar. Falei pra ele que eu estava com a cabeça pesada. Ele falou que na cadeia conversou com uma mulher que fazia umas perguntas e ela era da polícia e que você também era da polícia.
Pedi para ele ficar tranquilo, pois eu não era da polícia e falei novamente do trabalho dos Plantões em parceria com a Universidade e da questão do sigilo. Ele pareceu convencido.
– Aí, minha prima levou Willian na igreja e o espírito falou que a hora dele já está marcada. Ele ficou com medo e por causa disso está parando com o crime também. Eu fui lá falar com o cara que saiu e ele falou que ninguém tem que mandar na minha ideia. Perguntei como foi quando ele saiu e ele disse que os caras chamaram ele só mais uma vez e depois pararam. Falei com ele no domingo, ele disse que iria lá comigo na segunda ou terça. A gente chegou lá umas 10h e saiu umas 2h (14h). Tive que jogar a maior ideia no cara, porque ele queria saber o porquê de eu querer parar. Inventei uma história que vi um mano sendo assassinado na minha frente num assalto e vi que não quero isso, aí ele ficou perguntado aonde, como. A gente ficou um tempo em silêncio, eles discutiram um pouco, o chefe acusou o cara que saiu de estar fazendo minha cabeça. Depois ele falou para mim: “Firmeza, só que tem que ser homem de uma palavra só, depois já era”. Aí eu falei: “Firmeza, eu quero sair mesmo”.
– Como você saiu de lá?
– Sei lá, estou mais leve, estou conseguindo dormir.
Poderia parecer óbvio que a causa da ansiedade e insônia de Jonatan era sua participação no assassinato. Porém, como o sono tranquilo havia voltado e a cabeça já não estava mais “pesada”, se o assassinato continuava tendo ocorrido?
Os sintomas eram um chamado, queriam dizer algo a Jonatan e era preciso que ele os decifrasse. Os sintomas não eram resultados do passado, mas sim do futuro, do que ainda não havia acontecido, mas poderia se tornar real, caso Jonatan não se reposicionasse diante de sua história de vida. Era um chamado para ele se interpor entre seu passado e seu futuro.
– Fico feliz por você.
– Obrigado, valeu! Foi nossa conversa. _ Olhou-me com um sorriso.
– Você parece melhor mesmo do que quando entrou aqui semana passada, quando parecia ter 1.000 kg em cima de você. Agora pode ser até um tipo de renascimento, né?
– É! _ Ele estava, sem dúvida, muito satisfeito_ . Meu padrasto também me tirou de eu falar com você, porque ele falou que psicólogo pergunta uma pá de coisa, se eu gosto de homem. _ Demos risada _ Eu falei que você só tinha feito pergunta firmeza.
– Esse negócio de sigilo faz as pessoas imaginarem coisas, que é da polícia ou que fala de sexo...
– Outro dia, o “chefe” me perguntou se eu tinha visto um cara. Respondi “Não, por quê?”. Ele falou: “Umas paradas aí, que não te interessa mais”. Aí eu disse “Firmeza, fica aí com suas ideias.” Tô fora! Eu até ia passar na casa do cara que vendi a arma pra trazer para senhora ver.
– Você falou alguma coisa com sua mãe?
– Não. Ela me perguntou o porquê de eu não estar mais saindo à noite, falei que não ia mais sair. Aí ela falou “Sei, é só hoje, depois continua”. Falei que não, que tinha parado. Daí, ela falou que acabando a oitava série (estou na sexta), ela me arruma um emprego de vendedor com ela. Ela perguntou se não podia nós três conversar junto.
– Contanto que você esteja junto, tudo bem.
Marcamos para a semana seguinte e demos um aperto de mão.
– Tchau e parabéns pela conquista!
– Parabéns para senhora também, que foi graças à senhora que eu consegui. _ Deu-me outra bala.
Na semana seguinte, Jonatan não apareceu. Não me preocupei, tamanha a força dos encontros anteriores. Talvez, a urgência da mãe em conversar comigo tenha diminuído. Ao sair com o carro, passei pela praça em frente à creche e escutei: “Psicóloga! Psicóloga!” (acho que ele não sabia meu nome). Parei o veículo era Jonatan, ele saiu da roda de jovens em que estava, colocou a cabeça dentro do carro pelo vidro do passageiro e falou: “minha mãe não pode vir hoje, mas semana que vem a gente pode conversar com a senhora, né?” Respondi: “Claro”. Despedimo-nos com sorrisos.
Na próxima semana ele não apareceu. A educadora do Projeto, que me ajudava a marcar os horários com os jovens, perguntou-me se ele havia ido. Respondi que não, mas acreditava que Jonatan tinha dado o pontapé do qual precisava e que ela e o curso, especialmente naquele momento da vida dele, eram muito importantes. Nesse momento, outra educadora presente na sala falou: “Eu vi a mãe dele e ela disse, toda feliz, que tinha boas notícias dele.”
3º. encontro – Duração 30 minutos
Aproximadamente um ano depois, marquei um encontro com Jonatan e voltei à comunidade. Pediria sua autorização para incluir a descrição (como todas as alterações para evitar identificação) de nossos encontros na dissertação do meu mestrado.
Cumprimentamo-nos com um aperto de mão e um sorriso discreto. Ficamos a sós em uma sala e perguntei como ele estava. Ele disse que estava bem, terminando a sétima série, fora do crime e ajudando seu padrasto no trabalho de colocação de faixas. Falou que, às vezes, cruzava com o pessoal do movimento, cumprimentava-os e só. Contou que o marido da prima estava preso e “ele se deu bem mal”.
Comentei que fiquei feliz por ele. Expliquei melhor a minha dissertação e falei da vontade de promover o serviço dos Plantões e da importância das descrições das entrevistas para tal. Também falei que sua identidade seria totalmente preservada e caso quisesse poderíamos omitir qualquer trecho das nossas conversas e pedi para confirmar se o que estava escrito foi exatamente o que conversamos.
Li na íntegra e em voz alta com ele acompanhando no papel, o texto referente aos dois atendimentos, incluindo o trecho da descrição do assassinato, aqui omitido. Durante a leitura, seu único comentário foi o de que dois dos caras do grupo tinham morrido com tiros e em alguns momentos confirmava com a cabeça o que eu lia. Depois da leitura, falou, amistosamente, que estava tudo certinho e que eu não precisaria tirar nada (não parecia disposto a perder a confiança em mim).
– Como é recordar essas coisas?
– É bom e ruim, porque lembrar dessas coisas não é muito bom.
Assinamos os termos de consentimento, que enfatizam a questão do seu anonimato.
Agradeci mais uma vez, disse estar feliz por vê-lo bem e despedimo-nos. Eu estava na porta da sala, esperando a funcionária da creche para despedir-me quando, ao sair pelo portão, ele se virou e perguntou: “A senhora não vem mais aqui? Não vai mais ter Plantão?” Respondi que o Plantão recomeçaria no próximo ano e que seu consentimento contribuiria para isso. Ele completou: “Tem muita gente aqui que precisa”. Despedimo-nos novamente. Ao sair vi Jonatan na praça, abraçado e conversando com uma menina. Olhei, acenei e ele acenou de volta.
Apesar de pontuais e breves, os Plantões também podem ser uma ocasião para a pessoa descobrir uma oportunidade naquilo que lhe acontece e rever sua história de vida e seus possíveis futuros, escutando seus desejos e seus limites, ou seja, um tempo oportuno para se des-envolver.
SEGUNDA PARTE
O caso apresentado é de um jovem que ao descobrir significados nos seus sintomas pôde assumir a responsabilidade pelo seu futuro e reposicionar-se diante do mesmo.
A procura de alguém por seus caminhos é solitária e incerta. O profissional que acompanha uma pessoa nessa busca deve evitar respostas prontas e teorias generalistas para favorecer que ela realize uma descoberta autêntica. Sobre essa descoberta, Critelli (2004) escreve:
“[...] Faz parte da condição humana, sermos indivíduos exclusivos e essa exclusividade recebida com meu nascimento, não foi dada de mão beijada. Nem veio pronta nem tinha um manual. Ela se parece com aquelas massinhas de modelar que, quando a gente ganha, ganha só a massa, não a forma, e o resultado é sempre o fruto de um longo processo de faz e desfaz. Levei muito tempo para entender que minha exclusividade não está simplesmente em mim, na minha cor de olhos ou nos meus talentos mais especiais. Ela está sempre lançada adiante de mim como um desafio, como um destino a que tenho que chegar, como uma história que tem de ser vivida. [...] Quem eu sou e deverei ser? Minha individualidade é um mistério”.
Nós, humanos, somos este ser projetado no futuro, ou seja, em possibilidades. Nossa condição é “não ser e ter de ser”. Conforme Sapienza e Pompéia (2011, p. 171): “Porque seu existir é ek-sistir, é esse ser fora, jogado no mundo como um poder-ser, que ainda não “é” mas tem-de-ser, porque ele é poder-ser, aberto para o futuro, dizemos que existir é vir-a-ser.”
Devemos a nós mesmos o ser que ainda não somos. A nós falta algo, falta ser algo. Conforme Sapienza (2012, p.101) “A existência é sempre fática, cada um de nós existe sendo esse ter-de-ser o seu poder-ser no mundo que foi dado.”. Não escolhemos as condições físicas, familiares, sociais, epocais em que nascemos, nem as circunstâncias do que a vida nos traz, nem mesmo nossos sentimentos ("o mundo que nos é continuamente dado"), mas temos a tarefa intrínseca e intransferível de respondermos ao que nos é dado ("ter-de-ser") descobrindo nossos limites e nossas possibilidades ("poder-ser").
Nossa individualidade é um mistério e está sempre lançada adiante de nós como um desafio, assim nossa tarefa visa um escutar nossas convocações. Etimológicamente a palavra vocação origina-se do latim voco e significa ato de chamar. De acordo com Spanoudis (1978, p.12), poder ouvir o que nos apela capacita o homem a assumir algo que desdobra as suas próprias possibilidades e seus interesses pessoais.
De acordo com Critelli (1996, p.25): “Não se sai em busca da compreensão de um fenômeno tentando aplicar sobre ele uma resposta já sabida sobre ele mesmo; é a ele que perguntamos o que queremos saber dele mesmo. O que constitui a investigação é a interrogação e não a sua arquitetura instrumental.”
Aproximando-se dessa compreensão, Tuiavíi, um chefe de uma tribo do sul da Polinésia, comenta que o pensamento do Papalagui, como nomeia o homem ocidental, tornou-se obrigação, coação, está sempre no meio do caminho, tal qual um grande bloco de lava que ele não desloca. Ele exemplifica:
“A vida do Papalagui é semelhante a de um homem que vai de canoa para Saváii e que, mal se afasta da praia, pensa: “Quanto tempo vou demorar para chegar a Saváii?” Pensa, mas não vê a paisagem agradável que tem diante dos olhos. Se na margem aparece uma serra, já pensa: ‘Que é que haverá atrás desta montanha? Talvez uma enseada profunda, ou estreita?’ E não ouve as cantigas do mar que os jovens cantam; nem as brincadeiras divertidas das moças. Assim que a enseada e a serra ficam pra trás outro pensamento o atormenta: ‘Será que vai cair um temporal antes do anoitecer? Será?’. O Papalagui procura no céu então nuvens sombrias. Só pensa no temporal que pode cair; que não cai e a Saváii ele chega sem dificuldade. Mas é como se não tivesse viajado. (SCHEURMANN, 2003, p. 88)”
A fala simples do samoano pode servir de alerta para psicoterapeutas, pois precisamos estar com uma abertura para acolher o que chega, sem ficarmos presos em comprovar teorias.
Nos encontros descritos, Jonatan foi percebendo como o pavor em relação aos seus possíveis futuros constituíam seus sintomas. A compreensão de sua experiência não ficou restrita a causas passadas, nem buscou-se classificar sua personalidade, segundo algum manual psicométrico, menos ainda, havia um comportamento ideal preestabelecido a ser alcançado. Era uma descoberta própria que precisava ser feita. Ele descobriu seus quereres e o caminho para não trair a si mesmo. A priori o fenômeno é uma pergunta, é um mistério.
Arendt refere-se a um pensar diferente do pensar da cognição, por meio do qual o ser humano pode compreender algo. A tentativa da cognição é produzir conhecimentos cada vez mais corretos acerca do que aparece. Já o pensamento compreensivo não tem como um fim a aplicabilidade, seu destino é o significado. Esse pensar tem a capacidade de descongelar o pensamento congelado, rompendo com a experiência automática, mecânica da vida. Ao se colocar em questão compreensões do senso comum, coloca-se em questão também os fazeres atrelados a elas. Segundo a autora “Uma vida sem pensamento é totalmente possível, mas ela fracassa em fazer desabrochar a sua própria essência – ela não é apenas sem sentido; ela não é totalmente viva. Homens que não pensam são como sonâmbulos. (ARENDT, 2002, p.143)”
A vida passa a não ser mais vivida como uma linha contínua quando pensamos compreensivamente. Há outra forma de se localizar em relação ao tempo, que não é mais mergulhada no automatismo do cotidiano. O homem pode inserir-se nessa linha do tempo, interpondo-se entre passado e futuro, sendo capaz de perceber que a história aponta para o que foi, mas que não é mais, e o futuro aponta para o que ainda não é. Segundo Arendt:
“Nessa lacuna entre o passado e o futuro, encontramos o nosso lugar no tempo quando pensamos(...) Estamos aí em posição de descobrir o seu significado, de assumir o lugar de ‘árbitro’ das múltiplas e incessantes ocupações da existência humana no mundo. (ARENDT, 2002, p.158)”
Segundo a autora, a atividade desse pensar só é possível de ser feita quando se está a sós consigo mesmo e estar só é diferente de estar na solidão. O pensamento é um diálogo consigo mesmo. Dessa forma, uma das condições para ocorrer o pensamento não é a solidão, mas sim que a pessoa seja capaz de se fazer companhia nessa atividade, conversando consigo mesma, tornando-se “dois-em-um”. A busca por esse pensamento atravessou todo o encontro descrito, por exemplo: “Então, quem sabe…esse sofrimento possa ter vindo para você ver o que você quer para si mesmo”.
Quando perguntamos o que isso quer dizer, estamos querendo entender o significado de um fenômeno. Para isso, não podemos estar passivos, mas sim receptivos. Acompanhar uma situação participando dela requer uma abertura para uma dimensão do tempo enquanto oportunidade, tempo propício para alguma coisa, ocasião. De acordo com Pompéia (2005): “O homem é sonho e memória, é um construtor do seu abrigo, precisa fazer a si mesmo na convivência… no seu modo de ser próprio, acolhe sendo receptivo e não passivo o factual que vem ao seu encontro do futuro e recolhe o que está no passado de-novo, para que o já sido coexista com o que está sendo pelo por vir. O recolhido tem o poder de fecundar novos significados. Assim, o homem tem a potência de totalizar, reunir, fazer história.”
Jonatan escutou nos seus sintomas o medo de perder a mãe e seu amor e uma repulsa em ser como o primo. Ele acolheu esses sentimentos, não escolheu ou decidiu o que sentir. E, finalmente, acolheu o convite, a oportunidade de redirecionar sua história de vida.
A historicidade própria não se refere à história comumente entendida como uma sequência de fatos ou vivências datadas, que determinam os acontecimentos do presente ou do futuro. A historicidade explicita o “contexto da vida” ante a provocação do que ainda não é e poderá vir a ser, ante o imediato presente e, ao mesmo tempo, ante o retorno ao vivido.
Quando perguntei ao Jonatan para que sair do crime, buscava suas verdadeiras motivações, ou seja, a maneira como se sentia em relação às possibilidades futuras que conseguia vislumbrar para si. Ele respondeu querer sair porque: “Eu fico vendo o tempo todo o rosto do cara morto…” O mal-estar com aquela repetição da imagem significava algo. Ele previu o Jonatan que se tornaria, caso não agisse, e não gostou. Não seria preciso mudar o passado, mas fazer com que ele servisse a algum propósito. Sair do crime seria transformar o castigo em oportunidade! Ele começava a perceber que na aparição constante do rosto do homem morto estava o medo de tornar-se como o primo. Descobriu que seu futuro estava em jogo, ou melhor, sempre estivera e sempre estaria. Seu poder-ser o angustiava. Experimentou na carne sua vulnerabilidade, a vulnerabilidade humana. Um futuro indesejado anunciava-se a partir do que havia acontecido. O seu pavor advinha de sua indeterminação, mas nela também residia a oportunidade para tentar redirecionar seu futuro.
Não se trata de dar significado e sentido às experiências vividas, mas permitir uma abertura para escutar o que elas significam para nós, assim podemos des-cobrir o encoberto.
Jonathan fazia a descoberta profunda de sua vulnerabilidade! Essa vulnerabilidade, trazia tanto seu terror de tornar-se um assassino, frio, sem a mãe, sem seu amor, como também a oportunidade de um recomeço. Ele pôde projetar-se no seus possíveis futuros, a partir do vivido e des-cobrir um sentido, uma direção na qual queria seguir no presente.
Enquanto psicoterapeutas, buscamos favorecer o reconhecimento pelo outro de sua potência de encontrar-se continuamente em suas possibilidades, sendo parceiro da realidade, ou seja, que possa acolher, compreender e destinar o que vem ao seu encontro. Nosso trabalho busca a verdade como des-coberta de significado, como bem disse Jonatan “é engraçado como tem coisas que estão sempre aqui e a gente nunca vê”.
BIBLIOGRAFIA
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