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Fé, menina

  • Foto do escritor: Regina Sanchez
    Regina Sanchez
  • 22 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: há 12 horas




Certa vez, o entrevistador Bial perguntou à Gabriela Medeiros, atriz e mulher trans, o que é ser mulher. Ela não soube responder. Eu, mulher cis, que me considero muito mulher, também não saberia. Obviamente, conceitos de gênero variam de acordo com épocas e culturas, mas do que estamos falando quando atualmente dizemos identifico-me como mulher?  


Estava com essa questão pairando na cabeça, quando fui a um samba, que frequento há anos, e um amigo perguntou “A cantora é trans?”. Trans?, indaguei surpresa. Sim, ela é trans e eu nunca havia reparado nisso, era-me indiferente. Nunca, porque ela É (maiúsculo mesmo) muito mulher e, assim como eu, não é de usar saltos, maquiagens, acessórios, essas coisas normalmente associadas ao feminino. A feminilidade não reside aí, nem no tamanho dos pés, na genitália ou preferência sexual de uma pessoa. Não tinha e continuei não tendo dúvidas de que ela é tão feminina ou mais do que qualquer mulher (com todo respeito e solidariedade às vivências específicas das pessoas trans).


Justo eu, que não sou de caixinhas e definições, estava agora com essa questão na cabeça, quando fui arrebatada por uma linda e potente canção, Fé, menina, no concerto de Camila Masiso, U-A-U!!! Soube bem o que ela dizia. Será isso o que nos aproxima? Um tipo de fé com a qual nos identificamos? Ouvi: Fé, menina! Você vai sofrer tentativas de silenciamento, mas vai continuar lutando com fé. Você é mulher, tem a força de quem protege! Em nome das queimadas na inquisição, das abusadas de tantas maneiras, fé, menina!  Em nome de tanta luta feminina contra todo tipo de opressão em todo canto, em todas as épocas, tenha coragem, fé, menina! Estamos juntas, na luta por independência e justiça, fortes, cúmplices e amorosas, abrindo o coração numa fila de banheiro com uma desconhecida, abrigando quem precisa e aprendendo a dizer não. Será que o feminino reside num tipo de força que vem de uma fé sobre a qual as palavras são poucas? É sentir na pele o mínimo de opressão seja consigo, seja com uma de nós. É defender a honra da luta e sofrimento de sua avó, de sua mãe, defender a liberdade de sua filha, de sua amiga, de uma desconhecida. É colocar o homem em seu devido lugar, nunca mais acima ou à frente, mas ao lado. Fémenina é arregaçar as mangas, os punhos, é misturar fé, amor e luta, gestar fé com amor e luta, luta por amor.


Estava agora com essa questão no corpo e fui assistir a um show de jazz, quando o músico do vibrafone tocou uma música que compôs para seu avô, falecido há um ano, e desmanchei, fiquei sem palavras com o coração transbordando e as lágrimas vazaram. Que beleza emanava do som daquele vibrafone! Imagino que não haveria maneira mais bela e precisa, nem sequer outra, do compositor descrever o que havia vivido com seu avô e era uma canção instrumental, ou seja, s-e-m palavras! 


A questão estava agora no coração e percebi que o mais próximo para mim de expressar o significado da presença e da falta do meu falecido pai foram aquelas doces notas de vibrafone. Da mesma maneira, responder a pergunta do Bial apenas com palavras parecia insuficiente. Quando vivemos um momento muito genuíno, dizemos “fiquei sem palavras”. A verdade reconhecemos, não a definimos. Quando cantamos “quem se atreve a me dizer do que é feito o samba?” ou “sinônimo de amor é amaaarrr”, estamos dizendo: amor não é substantivo, não se encerra em definição! 


Essa questão já estava no meu corpo, no coração e na alma quando percebo que também sinônimo de feminina é fémeninar, ninar, apoiar, lutar, tudo misturado num sangue de fé. Ser feminina não se encerra nem em um conceito, nem em uma mulher. Está no olhar que reconhece e sabe (no sentido etimológico de saber, que é sabor) a dor e as conquistas da outra/eu; está no olhar que diz: "Estamos juntas! Força, somos fé, menina!”.


A questão agora transborda de mim e a resposta está no entre nós. Nossa feminilidade está na voz castigada e doce da senhorinha no refrão da música (imperdível) Povoada de Sued Nunes “Sou uma, mas não sou só”, está em Dandara, Marielles, Mahins, Marias, Malês, assim como na voz de Kali Peres (do grupo de samba que comentei), de Camila Masiso, simplesmente está… PRE-SEN-TE como pre-sen-ça e como dá-di-va em nós, mas, acima de tudo, entre nós.

 
 
 

1 comentário


Convidado:
há um dia

SEM PALAVRAS pra esse maravilhoso texto CEM PALAVRAS seriam poucas pra expressar o sentimento deixado nessas lindas palavras!!!!

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