O amanhã
- Regina Sanchez
- 8 de abr. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 2 de dez. de 2025
Parei no semáforo. Pelo retrovisor do carro vejo meus filhos, gêmeos de sete anos, olhando fixamente um morador de rua tendo uma alucinação, discutindo com o ar.
_ Mãe, por que aquele homem está falando sozinho?
_ Porque ele é meio doido.
_ Por que ele é meio doido?
Eu já havia entendido que essa era a primeira pergunta, mas...
_ Hum... porque isso às vezes acontece. Uma pessoa deixa de ser entendida, começa a ver e escutar o que os outros não escutam...
_ Mas assim, de repente?
_ Às vezes sim, meu filho.
_ E por que ele mora na rua?
_ Pode ser que tenha saído de casa quando era criança, porque seus pais eram violentos ou por beber muito ou usar drogas ou não conseguir trabalho e pagar aluguel.
A partir da vulnerabilidade daquele morador de rua, portador de algum transtorno mental, esbarravam na questão da vulnerabilidade humana. Obviamente, a falta de políticas públicas no nosso país é uma desgraça ainda maior para as populações mais vulneráveis. Porém, aquilo que parecia tocá-los era o fato da vida humana poder perder-se. Eu podia vê-los imaginado... Quem será que ele era antes de ficar assim? O José sapateiro, amigo do Jurandir, pai da Joana, marido da Maria das Dores, filho querido da Dirce? Como perdeu-se? Hipnotizados, meus filhos encaravam o homem e davam de cara com a fragilidade e vulnerabilidade do morador de rua, dos loucos, dos homens, da minha... da deles!
Tentei confortá-los com um certo senso de ordem, a lógica do um mais um é igual a dois. Buscava tranquilizá-los com uma visão generalista e determinista, omitindo o caótico da vida humana, o fato de nosso mundo poder desmoronar e de nossas vidas, por muitos motivos ou por motivo nenhum, poderem perder o sentido. Afinal, sete anos...
Eles não se contentaram e um deles complicou:
_ Mas e aquele homem do filme, que a família achou? Ele foi morar na rua, mas a família dele era boa!
Eles haviam assistido a um vídeo sobre um poeta e morador de rua, localizado e resgatado por sua família, que mostrava-se muito cuidadosa. Por isso, usaram a história para questionar minhas palavras.
Eita semáforo demorado!
Pensei, as explicações anteriores de causa e efeito não foram suficientes, mas as biológicas seriam, e insisti: "Ele virou louco e mendigo, porque ele tem um defeito na cabeça, mas logo os médicos descobrirão a cura”. Resolvido, defeito na cabeça, loucura ou vício, rua! Semelhante equação superficial da vida satisfaz tantos adultos: falha bioquímica - depressão, ansiedade, compulsão, etc - remedinhos tarja preta. Por que aqueles meninos de sete anos (sete anos?!) não se satisfariam? Fiquei indecisa. Deveria fingir que não os entendia? Eles estavam tateando a questão da vulnerabilidade humana e eu iria dar-lhes essa resposta? Eles falavam da pessoa que se perde dos seus irmãos e pais, mesmo eles sendo bons com ela; de um homem poder virar morador de rua; do fato das pessoas poderem perder o rumo de suas vidas de diferentes maneiras; da perda de sentido na vida do pobre ou do rico; do podermos nos desequilibrar, enquanto equilibristas que somos; da incerteza inerente aos nossos futuros, que solicita nossa dedicação para transformarmos nossos sonhos em realidade, sem termos garantias; do inesperado; do podermos nos perder; e de termos a tarefa intransferível de nos reencontrarmos; da fragilidade humana e por isso, sermos destinados ao cuidado. Eles estavam referindo-se ao andarilho que somos todos nós! Como eu falaria disso com meus meninos de sete anos?! Mas seria traí-los fingir que não os entendia. Olhei bem para eles, não estavam assustados. Já eu tive medo de eles descobrirem que explicações generalistas e reducionistas de causa e efeito (x + y = z) não dão conta da vida humana e, portanto, ela não é assim tão controlável e segura. Eles? Curiosos, sérios e atentos pareciam prontos para assimilar a expressão "só a morte é certa". Não percebi neles um sentimento bom ou ruim, mas sim uma descoberta crua de uma verdade sobre a natureza humana dos mendigos, dos loucos, da minha, das deles. Senti vergonha ao pensar em roubar-lhes a descoberta incrível, que começavam a fazer sobre ser gente, ser uma história única e vulnerável para perdas e ganhos, sobre sermos frágeis e, por isso mesmo, destinados ao cuidado. Finalmente, respondi-lhes:
_ É verdade, filhos. Muitas vezes, não há uma regra que explique o porquê das coisas acontecerem.
O farol abriu. Eu já não tinha pressa, a verdade estava servida. Eles viraram a cabeça na direção do homem, assim que o carro andou. Continuavam a encará-lo, sem medo e com respeito, pareciam fascinados ao reconhecer as diferenças e, principalmente, as semelhanças entre eles e o louco, ou melhor, entre eles e aquela pessoa.
Eles já não eram mais tão inocentes depois desse farol.
Após instantes da reflexão existencial, estavam maiores e com sete anos de-novo, morrendo de rir com uma brincadeira que fazem desde os seus cinco anos. Eu? Distraidamente cantarolava "Como será o amanhã? Responda quem puder..."




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